terça-feira, 27 de maio de 2008

Um quase show que ficou para a história

Não me lembro bem como chegamos. Se alguém nos levou de carro ou se fomos de ônibus. Mas estávamos lá, nós quatro e nossos ingressos para a pista.
A pista era o gramado do estádio Mané Garrincha.
O show do Legião Urbana seria o maior espetáculo que iríamos presenciar.
Um misto de ansiedade, excitação e depois apreensão, quando estávamos chegando, tomou conta de mim.
Quando chegamos ao estádio a apreensão cedeu espaço ao medo.
Uma multidão de carros, gente, ônibus, polícia, grupos, turmas, tribos e ambulantes se moviam lentamente.
A polícia montada passava rápida e imponente pela multidão que se avolumava no perímetro do estádio.
Logo minha prima encontra com uma amiga que tinha a aparência de alguém que acabara de acordar e sair nos tapas com a irmã mais velha e apanhado muito.
Seus cabelos estavam completamente desgrenhados, suas roupas amarrotadas, seus olhos vermelhos e a cara inchada.
Estava chorando quando disse:
- Eles estão jogando os cavalos para cima da gente! Está muito perigoso. Os cavalos me pisotearam!
Não sei de quem partiu a sensata idéia de trocarmos nossos ingressos para a arquibancada.
Nenhum de nós apresentou qualquer resistência.
Eu estava com a minha prima e dois amigos.
Tinha, além do medo, a preocupação em levá-la para casa com segurança, meu tio era bravo e eu não queria facilitar as coisas para o azar.
Sei que conseguimos realizar a troca dos quatro ingressos muito facilmente.
Três deles conseguimos de primeira e logo depois trocamos o último.
O alívio dividiu espaço com os outros sentimentos que se acotovelavam dentro de nós.
Fomos enfim para a segurança das arquibancadas.
Deixamos para trás o tumulto e imprevistos que poderiam nos recepcionar no gramado.
O clima estava tenso.
Dava para pressentir que alguma confusão aconteceria.
Porém, já nas arquibancadas, o medo se foi, a certeza de que tínhamos tomado a decisão correta nos permitiu relaxar e experimentar a sensação de bem estar, de estar bem no lugar certo.
Começa o show e nem me pergunte com qual música.
Nem me pergunte também qual o Renato Russo cantava quando o início do caos se instaurou. Lembro que ainda era o início do show quando uma bombinha de São João estourou no palco.
Na vida tudo se une em cadeias de eventos. Os acidentes são assim.
Eventos que transformam e afetam o ambiente e estimulam reações diversas nas pessoas, aguçam os sentidos, misturam sensações, desviam o curso natural das coisas, transgridem a ordem, ditam as regras, criam o caos.
O estopim veio da platéia, a inflamação, do líder da banda e da legião de seguidores.
- Bombinha aqui não! Disse Renato no mesmo instante em que a banda parou de tocar.
Era óbvio que qualquer artista ficaria furioso pela atitude irresponsável.
Porém, a caminho do caos, Renato Russo seguiu despertando a ira dos rebeldes da geração Coca-Cola.
O ídolo dizia estar rico e famoso. Instigava a multidão, proferia insultos que nem me lembro mais e assim surgiu a fúria quase coletiva.
Saíram do palco e logo começou a desordem total.
Um louco sobe ao palco sem luz e derruba alguns equipamentos.
Outros o seguem ao mesmo tempo em que a multidão inicia o coro do quebra-quebra.
Termina o show que acabara de começar.
Termina também o amor entre fãs e banda. Não por muito tempo.
Nunca mais haveria show do Legião Urbana em Brasília. Estávamos órfãos de uma das bandas mais presentes em nossas vidas.
Na volta conseguimos pegar um ônibus lotado para a Rodoviária e tivemos sorte por que depois ele seguiria para a L2 Sul. Deixamos minha prima na 405 sul e seguimos a pé para a 312.
Os vândalos quebraram vários ônibus e a polícia teve trabalho.
Como a sorte estava com a gente conseguimos chegar em casa sem mais problemas.
Tínhamos muitas histórias para contar.
É o que me lembro desse dia tenso, emocionante, desastroso e infelizmente decepcionante.

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