quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Sobre a cegueira

O livro apareceu por acaso. Ainda bem que chegou logo. Agora posso assistir ao filme de Fernando Meirelles. A obra que mais tinha vontade de ler agora faz parte da minha lista de prediletos. Já havia sido apresentado ao mestre Saramago no livro O Homem Duplicado que é fantástico também. Que forma magnífica de se escrever. É como música aos ouvidos. Para mim até agora, só ele e García Márques possuem a magia de escrever e transformar o comum em frases belas e poéticas, como ninguém mais.
O gênio da literatura e das idéias nos faz refletir sobre a cegueira de todas as formas. Nunca havia pensado como um cego justo eu que achava e me julgava alguém capaz de se colocar no lugar de outras pessoas. Que engano absurdo. Antes do contato com tão formidável narrativa, apesar da fobia que me sufocava a me ver a pensar como um cego vi, ainda bem, que nunca me colocara no lugar daqueles que não enxergam. Não tenho lembranças de que um dia eu tenha suportado tamanha agonia sem abrir os olhos imediatamente do mesmo modo desesperado quando se prende a respiração por brincadeira ou se nada rápido para a superfície da piscina quando contamos até sei lá quanto e desistimos rapidamente, e até nos entregamos à derrota facilmente, por não suportar estar sem ar, estar sem ver.
A cegueira mesmo que experimental te limita o espaço e por isso me sufoca pensar que pareço estar em um cubículo minúsculo, escuro e sem ar.
Como é ser solidário em meio a tanta solidão, angústia e desespero? O livro de Saramago nos mostra como a humanidade caminha para a cegueira e o quanto na verdade já estamos cegos. A morte começa pelos olhos. A alma sem brilho se perde e os bichos e bestas feras, animais que somos, surgem como praga a infestar e espalhar todas as banais, brutais e desesperadoras fraquezas humanas, vergonhas coletivas expostas não aos olhos, mas aos atormentados, sofríveis e pobres outros sentidos humanos, que se aguçam à falta das imagens roubadas.
Ouça, sinta os cheiros e os gostos, mas não veja nada, não se pode ver...
O que se ouve não é música, os cheiros não são os mais agradáveis e os gostos são mais amargos.
Uma história brilhante e tensa. Boa leitura. Agora vou ao filme.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O poder da fé

Um extraordinário exemplo do verdadeiro poder da fé e do perdão. A exposição das inúmeras atitudes que qualquer ser humano pode desenvolver: a estupidez, brutalidade, insensatez e o ódio que representam o terror hostil e animal entre dois grupos étnicos: os hutus e os tutsis. Dentro da alma elevadíssima e de estrema força espiritual, coragem, fé e amor, uma mulher consegue superar as dificuldades físicas e as que dilaceravam sua alma para sobreviver e contar essa história que a meu ver é mais um dos milhares de milagres que nos cercam. Uma história real e incrível acontecida em Ruanda em 1994. Recomendadíssimo. Boa leitura.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Uma cena prá lá de ridícula

Dando continuidade ao meu empolgado processo verão 2009 fui mais uma vez ao Parque da Cidade correr meus 4 km e repetir o que fiz ontem. Era quase 20h e a iluminação pública já estava ligada. Com isso a invasão dos indesejáveis insetos voadores que surgiram aos milhares tomando conta da pista. A primavera e seus desencantos. Comecei a caminhar até o ponto onde inicio o percurso. Estávamos eu e minhas canelinhas de fora, herança de algum primo distante da Etiópia, prontos para o que seria mais uma agradável corrida de 20 minutos. Observei e cheguei à conclusão que aquilo era uma selva. Nuvens de insetos voando desorientados pelo parque e nós humanos invasores nos debatendo para espantá-los. Muitos davam braçadas no ar para expulsá-los do caminho e outros pareciam indiferentes. Escolhi a indiferença como postura e segui meu caminho. Bastaram poucos metros para que na nuvem de aleluias, algumas mais abusadas me atingissem a face. Não sei por que uma delas foi direto em meu nariz, (herança de algum primo tucano), e outra bateu as asas em meu olho direito. Ainda estava com o celular nas mãos sintonizando a trilha sonora que me acompanharia (que engano) na minha São Silvestre particular. Imediatamente meu nariz começou a coçar e meus olhos a lacrimejar intensamente. Era como se eles tivessem vida própria e chorassem sem qualquer comando vindo da alma. Com a mão direita cobri o nariz e os olhos e tentava abri-los e enxugá-los, mas não conseguia. Já havia tomado o rumo de volta desejando jogar água na cara. Estava desolado com a revolta dos insetos, porém a revolta era minha por eles eliminarem qualquer possibilidade de concretização do plano barriga sarada para o verão em Porto de Galinhas. Voltei com a cabeça baixa e levando “aleluiadas” nas orelhas e no cabelo. Parecia que todas queriam pousar somente em mim. Para alguns eu devia estar chorando copiosamente após uma ligação telefônica, e talvez para outros estaria eu emocionado com tamanha gratidão da primavera: uma chuva de insetos enchendo o meu saco. O que seria uma corrida de 4 km acabou virando uma cena ridícula desenrolada em pouco mais de 40 metros. Essa foi a minha história de hoje: o dia em que os insetos arruinaram os meus planos. Uma espécie de efeito borboleta. Lembrei dos Titãs e daquela música em que eles cantam que as zebrinhas listradas, ursinhos peludos (e acrescento insetos malditos) vão se...........

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Run Forrest, run!

Voltei a correr!
4 Km em 20min e 25seg.
Parque da Cidade: 19h
Chuva no rosto e roupa ensopada.
Musiquinha para ajudar e empolgar.
Sensação total de liberdade e euforia.
Chuva no rosto e sorriso aberto.
Que bom!
Vamos ver se o espírito de Forrest Gump me leva até a corrida de Reis em janeiro de 2009.

Caixinha de Natal

Como sempre no final de ano aparecem as caixinhas de natal para os funcionários de determinados estabelecimentos comerciais. Aqui em Brasília, como sempre, os arrecadadores da caixinha são Policiais Militares com bloquinhos e caneta nas mãos para multar inúmeros carros que durante o ano inteiro estacionam em fila dupla no comércio das entre quadras. Para mim são formas diferentes de encher a caixinha dos funcionários. Curioso, não?

domingo, 9 de novembro de 2008

Cem Anos de Solidão

Nos dias e horas de solidão em que me vejo querendo mais do que nunca calar os pensamentos ou ao menos deixá-los de lado, quietos e menos ditadores de rumos, gosto de ouvir música alta. Bem alta se possível. Tenho até hoje em meu velho carro, meu velho toca-fitas com minha velha fita k-7 gravada com o bom e velho Dire Straits. Em alguns desses dias de solidão ouço a música Romeo and Juliet bem alta e mantenho o hábito de muito tempo: ouvir em meu velho carro, a minha velha fita k-7, gravada para mim com o bom e velho som dos caras do Dire Straits. E assim eu vou ouvindo o som bem alto que me leva até um lugar que me aquieta a mente e me acalma, um lugar longe de qualquer problema, dos acontecimentos que independem do acaso e das forças ocultas que teimam em fazer das coisas o que bem entendem. Vou para o lugar aonde as coisas acontecem do meu jeito, com o enredo que eu dirijo, escolho a música de fundo, o melhor lugar, os diálogos que nunca foram ditos cheios de sorrisos fáceis. Ainda bem que em meu celular também posso ouvir os caras do Dire Straits e outras tantas músicas. Meus livros me ajudam a deixar a solidão de lado e a cada lido, novos amigos surgem. Terminei de ler o livro que já havia lido antes, mas não tinha chegado ao fim. O dono na época o levou. Agora completada a leitura, os Cem Anos de Solidão está entre os meus livros preferidos. Talvez eu tenha até me sentido só nesses dias ao ponto de ouvir em meu velho carro na velha fita k-7, a solidão acompanhada com música. Tem dias que a gente escolhe a solidão como companhia e prefere ficar curtindo a melancolia, mas tem dias que a solidão invade as nossas vidas sem pedir licença. Das duas prefiro a que eu tenho escolha e domínio, a que está sob controle, mas aquela que nos rouba o sossego, que parece não ter fim e apavora que fique bem longe de mim e não dure mais que uma música. Que a nossa solidão não dure mais que alguns minutos, que o telefone toque e alguém diga alô. Que esse alguém nos tire para dançar e nos faça esquecer que um dia vivemos momentos assim. Que esse mesmo telefone não nos deixe a ouvir os intermitentes toques de chamada sem resposta quando o pegarmos para ouvir a voz do outro lado, e que essa voz nos tire da solidão. Que não tenhamos medo de apagar as luzes do quarto a imaginar que a solidão nos alcançará nos sonhos e nos roubará o descanso. Que a solidão exista e nos faça crescer, mas que ela não domine nossas mentes ao ponto de entrarmos em um show cheio de gente e ainda assim nos sentirmos sós. Que a solidão não nos faça esquecer a presença de Deus ao nosso lado. Que a minha solidão não me deixe nunca esquecer as inúmeras pessoas que me preenchem a vida pelo simples fato de existirem: meus tesouros que a cada dia me esmero em cativar. Que a solidão esteja somente nas páginas do romance do Gabriel Garcia Márques, e boa leitura. Ainda bem que nunca estamos sós. Assim seja. Apesar de a solidão nos remeter para a tristeza não achei o livro triste. A inventividade do autor e as esquisitices que surgem das histórias que geram outras histórias e trazem mais outras com os seus personagens e fatos que só podem ser fruto da imaginação de um gênio, que escreve de forma tão espetacular que, na minha simples, humilde e discreta análise, só posso admirar tamanho brilhantismo. Que gênio!

domingo, 2 de novembro de 2008

Medalha

Em pé: Germano, Chicão, Wandenor, Ricardo, que Mário?, Gilson, Esteamer, Isidório.
Agachados: Lobo, Jessé, Lopes, Júlio e Augusto.


Eis que depois de duas décadas volto para casa com uma medalha. As primeiras que ganhei levava orgulhoso para mostrar aos meus avós. Elas eram fruto de vitórias dos jogos contra times de outras quadras próximas a minha, nos gramados sinuosos e cheios de árvores, onde as traves eram marcadas com pedaços de pau fincados no chão e apoiados com pedras. Não havia a trave superior e a altura limite dependia do tamanho do goleiro. Bolas muito acima dos braços estendidos eram consideradas altas e superavam a linha imaginária, que para cada um era um lugar diferente.

Eis que nós homens continuamos a brincar de bola depois de grandes e disputamos campeonatos e brigamos e xingamos e torcemos e rezamos antes dos jogos e aquecemos como os profissionais e comemoramos com vontade os nossos gols e não gostamos de tomar gols. Hoje passei ao lado do cemitério antes de ir jogar sem saber se voltaria com a medalha, e na volta pelo caminho contrário, novamente passei por onde vovô e vovó estão descansando e no dia de lembrar dos nossos mortos trouxe para eles uma medalha, a mais legal delas, a que ganhei ao lado dos colegas de trabalho, os mesmos que se abraçaram como crianças sorridentes depois que ganhamos nos pênaltis o terceiro lugar, ganhamos também a nossa suada conquista pessoal. Como é bom brincar de ser criança, jogar bola uniformizados, com juiz e apito e gols com rede. Posso até ver a carinha dos meus avós sorrindo para mim com a minha medalha. Como é bom ganhar! Aos meus companheiros, muito obrigado! Obrigado por me darem a chance de trazer para casa uma medalha e poder oferecê-la aos meus queridos e sorridentes avós que estão no céu.