O livro apareceu por acaso. Ainda bem que chegou logo. Agora posso assistir ao filme de Fernando Meirelles. A obra que mais tinha vontade de ler agora faz parte da minha lista de prediletos. Já havia sido apresentado ao mestre Saramago no livro O Homem Duplicado que é fantástico também. Que forma magnífica de se escrever. É como música aos ouvidos. Para mim até agora, só ele e García Márques possuem a magia de escrever e transformar o comum em frases belas e poéticas, como ninguém mais.O gênio da literatura e das idéias nos faz refletir sobre a cegueira de todas as formas. Nunca havia pensado como um cego justo eu que achava e me julgava alguém capaz de se colocar no lugar de outras pessoas. Que engano absurdo. Antes do contato com tão formidável narrativa, apesar da fobia que me sufocava a me ver a pensar como um cego vi, ainda bem, que nunca me colocara no lugar daqueles que não enxergam. Não tenho lembranças de que um dia eu tenha suportado tamanha agonia sem abrir os olhos imediatamente do mesmo modo desesperado quando se prende a respiração por brincadeira ou se nada rápido para a superfície da piscina quando contamos até sei lá quanto e desistimos rapidamente, e até nos entregamos à derrota facilmente, por não suportar estar sem ar, estar sem ver.
A cegueira mesmo que experimental te limita o espaço e por isso me sufoca pensar que pareço estar em um cubículo minúsculo, escuro e sem ar.
Como é ser solidário em meio a tanta solidão, angústia e desespero? O livro de Saramago nos mostra como a humanidade caminha para a cegueira e o quanto na verdade já estamos cegos. A morte começa pelos olhos. A alma sem brilho se perde e os bichos e bestas feras, animais que somos, surgem como praga a infestar e espalhar todas as banais, brutais e desesperadoras fraquezas humanas, vergonhas coletivas expostas não aos olhos, mas aos atormentados, sofríveis e pobres outros sentidos humanos, que se aguçam à falta das imagens roubadas.
Ouça, sinta os cheiros e os gostos, mas não veja nada, não se pode ver...
O que se ouve não é música, os cheiros não são os mais agradáveis e os gostos são mais amargos.
Uma história brilhante e tensa. Boa leitura. Agora vou ao filme.
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