domingo, 19 de abril de 2009

Quem me roubou de mim?

O padre Fábio de Melo nos diz que existem pessoas que nos roubam e que outras nos devolvem. Possivelmente já estivemos dos dois lados, pelo menos é bem provável que sim. A riqueza que a leitura nos trás é a de podermos receber e perceber experiências novas de forma diferente e inovadora para assuntos que julgamos ter o entendimento em toda a sua complexidade. Achamos que sabemos o início, meio e fim de qualquer coisa, mas sempre há algo a mais para se pensar a respeito. Refletir também sobre o ponto de vista de cada um nos enriquece e é interessante quando a forma de enxergar e pensar são diferentes e sensatas, apesar de simples. E é comum pensarmos que nunca havíamos encarado as coisas da forma como foi expressa pelo autor e aí nos vem àquela sensação de limitação da imaginação, de redução do campo de visão e perspectiva. Faltam a nós levantarmos mais a cabeça e não olharmos tão para baixo, e sim para a frente e muito além do que nossos olhos são capazes de alcançar. Manter o foco além da linha do horizonte. Garantir que o desejo nunca se acabe, realizar o que chamo da constante e incansável manutenção do bem querer para que a fonte não se esgote e os objetivos se percam pelo caminho.
Podemos agir de muitas formas e algumas delas nos fazem ter quase a completa identidade com o que o autor revela e nessa hora é bom comemorar com um "yes!" (ponto pra mim). Claro que deve haver a concordância com o significado do que se lê, além, é claro da aplicabilidade do que é proposto. Por outro lado há também a discordância sobre alguns pontos que julgamos que não se encaixam com aquilo em que cremos.
Ayrton Senna disse que só acreditava em horóscopo quando a mensagem trazia algo de significativo, algo bom, fora isso descartava o que não lhe agradava. Sempre fiz assim.

Voltando à obra, ganho ponto quando concordo com o que está escrito e aplico em minha vida e, talvez, ignore aquilo que não tenho feito por não concordar tão facilmente. Parece uma espécie de trapaça e comodismo, mas não quer dizer que não exista a vontade de aprimorar o que se aprendeu, de ser cada vez melhor como pessoa, principalmente quando se trata do convívio com alguém. Antes eu costumava utilizar a expressão pessoa ideal, porém, admito que o mais correto, como diz Fábio de Melo, seja estar ao lado de alguém que tenha a qualidade de ser a pessoa certa. Aquela que não deixa de ser o que sempre foi, por ser autêntica aos seus princípios, possuir inúmeras qualidades e trazer consigo também seus defeitos. O ideal remete à ideia de personificação de alguém que não existe, de alguém que criamos por conta própria, que moldamos de acordo com o que gostaríamos que ela fosse. É óbvio que isso trás à tona as constantes e inquietas sensações de decepção, pois, ninguém deve ser moldado para realizar, da nossa maneira, o que projetamos no campo das ideias. Ninguém deve ter a sua vida e maneira de agir sequestrada. Ninguém deve ser jogado no cativeiro da dor pela perda da identidade roubada por alguém que julga fazer isso por amor. Pessoas realizam suas ações por livre e espontânea vontade e quase sempre da forma que deve ser e não pela maneira que achamos que deveria ter sido. Mas amar é muito mais que a espera, é se entregar sem pensar no que virá, é doação, é servir e querer bem. Porém, às vezes cobramos por sermos egoístas, nas entrelinhas dos nossos atos exigimos a troca, na carência, baixamos a guarda e mesmo que peçamos bem baixinho, quando na verdade queremos até gritar para avisar que a via da vida tem mão dupla, estamos errados. Humanamente fraquejamos e apresentamos a conta, a cobrança e os 10% pelo excelente serviço prestado pelo melhor atendente da casa. Como nos julgamos os melhores quando atitudes assim nos relevam fracos.

Pode não haver na vida real um conto de fadas, mas pode haver sim, o objetivo de tornar a nossa história o mais belo dos contos, com nossos atos carregados de amor que podem fazer com que a vida seja repleta de momentos mágicos e agradáveis. Que a frase "e viveram felizes para sempre" seja real sim, mas não ideal, pois ela tem que ser vivenciada e alcançada por ações na medida certa, com a pessoa certa, nas horas certas, por todos os dias, como se fosse sempre a primeirra vez. A manutenção preventiva das coisas que são nossos maiores bens deve ocorrer a cada momento, por nossos gestos, palavras e acima de tudo pela nossa eterna gratidão aos presentes que recebemos todos os dias de Deus e daqueles que nos amam.

Um dia desses lembrei de uma música de Oswaldo Montenegro...

Metade

"Que a força do medo que tenho

Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito

Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é o que eu grito

Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe

Seja linda ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada

Mesmo que distante

Porque metade de mim é partida

Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo

Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor

Apenas respeitadas

Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço

Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

Se transforme na calma e na paz que eu mereço

E que essa tensão que me corrói por dentro

Seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso

Mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste

E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso

Que eu me lembro ter dado na infância

Por que metade de mim é a lembrança do que fui

A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais que uma simples alegria

Pra me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo

Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta

Mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar

Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer

Porque metade de mim é a platéia

A outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

E a outra metade também".

2 comentários:

Silvia disse...

Deus me deu o presente mais lindo que alguém poderia ganhar! Não tenho dúvida de que você é a pessoa certa!

Unknown disse...

Liiindo! Lindo!! rs..rs.. O amor é liiindoo!!!
Bela explanação MM's!! A mais pura e, muitas vezes, dura verdade!